“Que eu possa respeitar opiniões diferentes da minha. Que eu possa me desculpar antes do ódio. Que eu possa escrever cartas de amor de repente. Que eu possa viajar para adorar a distância. Que eu possa voltar para dizer o que não tive coragem. Que eu pense em meu amor ao atravessar a rua. Que eu pense na rua ao atravessar o amor. Que eu dê conselhos sem condenar. Que eu possa tomar banho de cachoeira. Que eu seja a vontade de rir. Que eu possa chorar ao assistir filmes. Que eu não seduza para confundir. Que eu seduza para iluminar. Que eu não sacrifique a confiança pela covardia. Que eu tenha dúvidas, melhor do que certezas e falir com elas. Que eu faça amizades falando do tempo. Que eu possa amar mais sem contar as horas. Que eu use somente as palavras que tenham sentido. Que eu prove a comida nas panelas. Que transforme a raiva em vontade de me entender. Que eu possa soltar os vaga-lumes que prendi em potes. Que eu me lembre de ser feliz enquanto ainda estou vivo.”
“- Vai se foder!
- Sabe… - ele ficou sério. Matt se aproximou, mantendo-se a um palmo de distância dela - Eu estou começando a me cansar de você me mandando se foder.
- É? Foda-se! Foda-se, Matt. Foda-se você.
Ele sacudiu a cabeça e se afastou.
- Você tá bêbada. Não vou discutir com você. Você já é insuportável o bastante sóbria.
- Sou? Por isso você me agarra toda vez que ficamos sozinhos?
- Te agarro? - Matt riu. - Tudo bem. Vamos parar por aqui antes que fique sério.
- Você é um idiota.
- Tá. Agora vai tomar um banho gelado - ele a empurrou para o banheiro, mas ela pouco se mexeu.
- Sabe o que eu acho, Matt?
- Não. E não quero saber. Vá encher o saco de outro. Porra, cadê o Sean?!
- Se tirarmos o sexo, as drogas e o seu maldito cigarro, não sobra nada. Só um arrogante deprimido.
As bochechas do garoto começaram a ganhar cor e suas sobrancelhas se juntaram. Ele estava ficando nervoso.
- Você não consegue ouvir a verdade, consegue, Matt?
- Acho melhor você ficar quieta. Está começando a me irritar.
- Sério? - Roxy fez questão de olhar dentro dos olhos dele e desafiá-lo - E o que você vai fazer? Me agarrar? Estou morrendo de medo.
Ela riu olhando para ele. Havia o tirado do sério. Matt já tinha perdido a calma.
Ele a empurrou para a parede atrás deles e manteve um braço esticado a direita, dificultando uma possível fuga da garota.
Roxy fechou os olhos com a menção de Matt em beijá-la, mas os lábios dele encostaram na orelha dela. Acordando-a.
- Continue, Roxy. Mandando eu me foder. Mentindo. Fingindo ser o que você não é. Difícil. Porque se eu quisesse, se eu realmente quisesse… Você já estaria na minha cama.”
“E mais uma vez, eu abri uma página sua de uma rede social e fiquei olhando sua foto. Como eu já sorri olhando praquilo, você não tem idéia. Mas das ultimas vezes, infelizmente não era sorrindo que eu olhava, era com desanimo, com saudade e mágoa misturadas. Porque você tinha que morrer? Porque você tinha que matar tudo que eu sentia? Me obrigar a morrer também. Me obrigar a fingir estar viva pra todo mundo. Me obrigar a não chorar, quando tive vontade de chorar. Vontade de te esmurrar, te dizer que você é um idiota, um babaca, um cretino, um fraco, nunca passou disso. Nunca uma piada sua foi engraçada, nunca você me surpreendeu. Nunca. Mas eu não consigo deixar de pensar em você, a cada dia, a cada ato meu. E quando eu procuro outras pessoas, eu procuro imaginando você me vendo. E tendo ódio de mim. Porque eu quero que sinta ódio. Porque ódio significa alguma coisa, e é melhor que indiferença. Você que já foi tudo, já foi minha esperança, foi meu futuro imaginado, hoje não é nada. Não passa de uma foto numa rede social. Se eu vivo bem sem você, por que eu continuo te olhando? Por que eu sempre volto aqui? Por que eu ouço musicas que falam de tristeza? Por quê? Você não vale isso. Mas eu faço. Eu continuo fazendo. Como uma cerimônia de luto, eu sigo a risca. Mas acontece que você não morreu de verdade, do jeito que eu preferia que morresse. Você está ai vivo, vivendo sua vida, fazendo suas coisas, feliz, tranqüilo, sem sentir minha falta, sem olhar minha foto em rede social. Por que eu não consigo? Por que você não podia ser alguém? Eu esperei muito de você? Não. Eu não esperei nada, eu entendi tudo, eu entendia o que ninguém entenderia. Eu respeitei. Eu fiz como você quis. Tudo. Eu me anulei. Eu deixei de me amar, pra todo meu amor ser só seu. Eu voltei atrás. Eu chorei, eu pedi desculpas, eu agüentei besteiras. Agüentei tudo. Ajuntando do chão, migalhas do seu carinho, migalhas do seu amor. Do seu jeito explosivo e calmo. Um dia me amando como se a terra fosse acabar depois da meia noite. No outro dia um desconhecido me pedindo pra tratá-lo como qualquer um, por favor. Você é meu personagem favorito. O dono de todos os meus textos, de todas as minhas histórias. O dono da curvinha das minhas costas. E eu tenho que dizer isso agora, só pra uma foto numa rede social. Porque você morreu na minha vida. Você pediu demissão, seu cargo era o de presidente, era membro honorário do conselho, tinha tapete vermelho e eu me vestiria até de secretária se te agradasse. E você pediu demissão, sem aviso prévio nem nada. Me diz agora? Como viver bem? Como sobreviver, sem essa ponta de angustia? Eu sou feliz, cara. Eu sou feliz demais. Mas eu sou infeliz demais, quando penso em você. Quando penso no que poderia ser, no que poderia ter sido. Eu sei que não dá. Eu nem quero que dê. Não quero mais. Mas não sei o que fazer com esse nó. Vai passar né? Eu sei. Com o tempo eu não vou mais olhar sua foto, nem sofrer, nem pensar o quanto é infeliz tudo o que aconteceu. Tomara que passe logo. Porque a vontade de te ressuscitar as vezes, me domina.”
“Amanhã ou depois você vai conhecer alguém. Não importa a hora, ou o dia. Um dia você vai conhecer alguém. É uma certeza. Alias, todos os dias nos conhecemos alguém; só temos preguiça de socializar. É aquela coisa… você vê a pessoa todos os dias, sabe a cor dos olhos dela, mas não tem a mínima noção de como é sua sobrancelha, - hoje em dia, no mundo das franjas, é realmente difícil vê-las. A gente não conhece as pessoas direito por preguiça. Mas amanhã ou depois você vai conhecer alguém. Alguém que vai valer a pena. Alguém que vai lhe dar uma lição, e te ensinar que as coisas nem sempre são do jeito que você quer. E vai saber todos os detalhes da face dessa pessoa, e vai saber cada defeito, cada medo e vai gostar. É uma certeza. É o clichê da vida: Conhecer uma pessoa, gostar dela, amá-la e deixá-la ir, ou mandá-la embora. Mas não se apresse, um dia você vai conhecer alguém que vai valer a pena. Pode não ser hoje ou amanhã… Um dia, quem sabe.”
“[…] sentia vontade de chorar, mas não saia lágrima alguma. Era só uma espécie de tristeza, de náusea, uma mistura de uma com a outra, não existe nada pior. Acho que você sabe o que quero dizer, todo mundo, volta e meia, passa por isso, só que comigo é muito freqüente, acontece demais.”
“- Você não gosta dessa porcaria de verdade?! Aqui está. Então pára de falar de nós como se fosse apenas eu. Pare de agir como se não quisesse que eu te beijasse agora - seus lábios partiram em direção a boca da garota. Mas Matt não a beijou. Ele soltou devagar as mãos dela e a deu espaço para fugir - Como vai ser, Roxy?
Ela baixou os olhos para as suas mãos livres. Matt continuava perto. Perto o bastante para que ela sentisse sua respiração alterada. O que deixava claro que não era Roxy a única nervosa.
Segundos duraram uma eternidade. Matt não tinha nada a dizer. Ele esperava por uma resposta dela.
Roxy baixou a cabeça e se distanciou um passo. O guitarrista desaprovou. Ela iria fugir, de novo. Mas a garota recuou. Roxy voltou para a parede e encarou Matt. Ela trouxe o braço dele de volta para a parede e segurou em sua mão.
Sua visão estava embaçada, mas ela pôde vê-lo abrir aquele maldito sorriso cínico.
Em um toque demorado a roqueira passou o dedo sobre o piercing nos lábios de Matt. Contornando-o. Quando terminou, sua mão estava na nuca do guitarrista. E ele a beijou.
As mãos do casal ficaram na parede presas uma a outra o tempo inteiro. Entrecruzadas.”
“Você se cansa de amores incompletos, de amores platônicos, de falta de amor, de excesso disso e daquilo. Se cansa do “apesar de”. Se cansa do rabo entre as pernas, da sensação de estar sendo prejudicado, se cansa do “a vida é assim mesmo”. Você se cansa de esperar, de rezar, de aguardar, de ter esperanças, cansa do frio na barriga, cansa da falta de sono. Você se cansa da hipocrisia, da falsidade, da ameaça constante, se cansa da estupidez, da apatia, da angústia, da insatisfação, da injustiça, do frenesi, da busca impossível e infinita de algo que não sabe o que é. Se cansa da sensação de não poder parar.”